A Dra. Maria Cláudia Lins, ginecologista formada pelo Centro de Referência em Saúde da Mulher (Hospital Pérola Byington, em São Paulo — o maior centro de saúde da mulher da América Latina, com foco em pacientes oncológicas), aborda um tema pouco falado, mas essencial: a sexualidade durante o tratamento oncológico.
Ela começa lembrando que a sexualidade é como uma “pizza”, com várias fatias que precisam estar em harmonia — física, psicológica, o relacionamento com o parceiro, crenças pessoais. Nesta aula, o foco é a parte física: como o tratamento pode afetar o corpo e a intimidade, e o que existe hoje para ajudar.
A quimioterapia, ao atacar células que se dividem rapidamente, também afeta os ovários (que têm alta renovação celular todo mês), podendo causar uma queda hormonal transitória ou permanente — o que leva a sintomas parecidos com os da menopausa: secura vaginal, queda da libido, calores, alterações de humor e memória. Já a radioterapia na região pélvica pode causar um estreitamento da vagina (estenose), tornando a penetração dolorosa. Cirurgias na região pélvica ou mamária também podem alterar sensibilidade e autoimagem, e o desconforto físico geral do tratamento (cansaço, náuseas) naturalmente reduz o desejo.
Entre as soluções práticas, ela detalha: lubrificantes (de uso pontual, na hora da relação, sempre sem fragrância e sem efeito esquenta/gela), hidratantes vaginais (uso contínuo, a cada 2-3 dias, pra tratar o ressecamento no dia a dia, não só durante o sexo), fisioterapia pélvica e dilatadores vaginais (com acompanhamento profissional, pra casos de estenose), o estrogênio vaginal em baixa dosagem (não indicado para todos os tipos de câncer — decisão sempre conjunta entre oncologista e ginecologista) e o laser íntimo (tecnologia mais recente, ainda restrita à rede particular na maioria dos casos, com resultados promissores mas sem protocolo padronizado ainda).
Ela reforça um ponto importante: a penetração não é o centro do prazer feminino — o clitóris, que fica externo, tem esse papel central — e vale a pena redescobrir outras formas de intimidade nesse momento. E encerra com uma mensagem de acolhimento: não existe prazo certo para retomar a vida sexual, cada corpo tem seu tempo, e a mulher não está sozinha nessa jornada — conversar sobre o assunto, com o parceiro e com outras pacientes, ajuda a quebrar o silêncio em torno de um tema que ainda carrega muito tabu.
Conteúdo produzido por: Dra. Maria Cláudia Lins — Ginecologista.