Açúcar alimenta o câncer? Chá de graviola cura? Fruta crua está proibida durante o tratamento? Poucas doenças carregam tantos mitos quanto o câncer — e, no consultório, desmistificar essas crenças toma boa parte do tempo da consulta. É o que explica a Dra. Paloma Egídio, nutricionista desde 2015, especialista em paciente crítico pela residência da UFPB e em oncologia pelo A.C.Camargo/Sírio-Libanês, que atende exclusivamente pacientes oncológicos há 4 anos, somando mais de 700 consultas.
Antes de qualquer mito específico, uma orientação vale para todos: Instagram, TikTok e YouTube não são fontes confiáveis de informação sobre nutrição e câncer. A fonte confiável é o profissional que acompanha você. Com isso em mente, veja os mitos mais comuns ouvidos em consultório — e o que diz a evidência.
Talvez o mito mais repetido. A explicação da Dra. Paloma: quando comemos carboidratos — arroz, macarrão, cuscuz, batata — o produto que chega até as células é a glicose, o açúcar. Isso significa que todas as células do corpo, saudáveis ou cancerígenas, usam glicose como combustível. Mas as células cancerígenas não se alimentam só de açúcar: elas se alimentam também de gordura e de proteína. Cortar carboidrato não “mata de fome” o tumor — apenas priva o paciente de uma fonte de energia essencial, e isso quase sempre resulta em perda de peso, que é o problema nutricional mais comum e mais grave no paciente oncológico.
Isso não significa liberdade total: o consumo excessivo de açúcar simples (bolo, doce, refrigerante) segue precisando de moderação — mas por equilíbrio geral, não porque “alimenta” o câncer.
Chá de graviola, noni: são os exemplos mais citados por pacientes em consultório. A fruta noni, inclusive, está proibida para comercialização como alimento no Brasil desde uma nota técnica de 2007 — proibição que, infelizmente, não é fiscalizada na prática. Não há alimento com esse “superpoder” de cura. Consumir graviola como fruta não tem problema (como qualquer outra fruta), mas atribuir a ela ou a qualquer chá um efeito curativo é um risco: pode levar o paciente a abandonar orientações reais em troca de uma promessa sem respaldo científico.
Historicamente, alimentos crus e perecíveis (folhas, tomate, morango, uva) eram cortados por completo em uma chamada “dieta neutropênica” — pelo risco de contaminação em um paciente com imunidade reduzida. Mas a orientação atual não é eliminar esses alimentos, que são fontes importantes de fibra: é garantir uma higienização correta (água corrente + sanitização adequada, não só lavagem simples). A exclusão total só é indicada em casos específicos de imunossupressão severa, como preparo para transplante de medula. Fora isso, cortar alimentos crus sem necessidade reduz ainda mais as opções alimentares de um paciente que já costuma comer pouco — agravando a perda de peso.
Não é regra geral. Frutas cítricas podem, sim, causar desconforto gástrico em alguns pacientes, e não são indicadas especificamente para quem está com mucosite (efeito colateral comum de vários protocolos de quimioterapia). Fora dessas situações individuais, não há motivo para excluí-las.
O que realmente caracteriza uma alimentação mais inflamatória é o excesso de produtos industrializados e ultraprocessados — não o glúten ou a lactose em si. A menos que o paciente tenha intolerância, restrição à proteína do leite ou esteja com diarreia, não há necessidade de cortar esses grupos.
Se há um fio condutor entre todos esses mitos, é este: 50% da rotina de consultório da Dra. Paloma envolve pacientes que chegaram autorrestringindo lactose, glúten ou outros alimentos por conta própria — baseados em uma informação da internet ou de terceiros, sem fundamento clínico. O resultado, quando essas restrições se acumulam, é baixa ingestão alimentar e perda de peso, muitas vezes significativa (o relato de pacientes com 20 kg a menos não é raro).
Isso é particularmente grave porque o câncer já é, por natureza, uma condição de alto gasto energético: o corpo mobiliza recursos para combater a multiplicação acelerada das células, e se essa energia não é reposta pela alimentação, o paciente perde peso — especialmente se soma náusea, diarreia, saciedade precoce e falta de apetite, efeitos colaterais comuns do tratamento. Por isso a orientação, nesses casos, é priorizar alimentos com maior densidade calórica (não substituir refeições por frutas e sucos, que têm pouca caloria) e recorrer à suplementação quando necessário — sempre individualizada, considerando estado nutricional, tipo de tratamento, efeitos colaterais, orçamento familiar e rede de apoio do paciente.
Não existe alimento vilão nem alimento milagroso isoladamente. O que existe é a necessidade de acompanhamento nutricional individualizado desde o diagnóstico — porque o estado nutricional do paciente impacta diretamente o desfecho do tratamento. Como resume a Dra. Paloma: a saúde começa no prato, seja na prevenção, seja no tratamento.
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual de um nutricionista ou da sua equipe de saúde. Consulte sempre seu médico ou nutricionista antes de fazer mudanças na sua alimentação durante o tratamento oncológico.
Assista à aula completa no módulo Bem-Estar Físico e Nutricional da Cancer Talk Education.